domingo, 7 de setembro de 2025

O que é inteligência artificial

Em seu livro What computers can’t do[1] Hubert Dreyfus
Fala que “a ideia de que todo raciocínio poderia
Ser reduzido a algum tipo de cálculo” vem desde
Sócrates e Platão, que propõe no diálogo “um
Conjunto de regras que nos diz exatamente,
De momento a momento, como nos comportarmos”[2];
O autor ainda cita o fato de que o criador da cibernética[3]
Norbert Wiener escreveu que Platão foi o seu precursor
E que foi ele quem forjou o termo[4]; no entanto,
A proposta de pré-programar noemas e ações
Se torna múltipla, visto que os significados se multiplicam
Nas várias interações; o sistema nervoso é incerto
Como na obra de Benedict Delisle Burns[5]
Pois a plasticidade sináptica, sobre a qual ele fala,
Tanto faz com que o homem extrapole o humano
Em termos imagéticos, cognitivos, quanto cibernéticos;
Virtualmente podemos entender a natureza como cibernética,
Isto é, a transmissão de informações e as operações
Acontecem entre os indivíduos e o meio o tempo inteiro,
Inclusive entre espécies, isso no nível da célula
Da molécula e do átomo, e quando for possível estudar
A interação em outro recorte, ainda mais fino,
Com certeza encontraremos as transduções e acoplamentos
O que já podemos vislumbrar com a microbiologia;
As ciências sempre sendo plurais, ainda mais,
A Filosofia trabalha com a Neurociência, a Teoria da complexidade,
A Linguística, a Cibernética e a Informática; o cérebro é o cosmos
E o caos, um sistema dinâmico, não determinístico;
Sobre a aplicação possível das pesquisas com ordenador
Visando compreender a inteligência humana,
Changeux e Foester comentam: “Como poderíamos imitar
Algo de que ignoramos o funcionamento?”
“Conheço, é claro, os programas de computador
Que executam uma enorme quantidade de operações
Lógicas ou metalógicas, e que tentam até revisar
Os seus próprios programas tirando as consequências de suas interações.
Mas não sei se isto pode ser considerado pensamento”.[6]
Essa maneira caóticorganizativa do biológico
Que as máquinas mera e lentamente imitam,
É a essência do nosso ser, a produção múltipla e complexa
Da interface do espírito com a matéria (poderíamos
Aqui citar Bergson, porém prefiro referenciar)
Como pensam Gilles Deleuze e Félix Guattari
No seu capítulo intitulado «Do Caos ao Cérebro»[7].
Este singelo poema é fruto da conversa
Que temos hoje eu e minha mulher Eliane Colchete
E a bibliografia riquíssima que ela me aplica;
Todavia, a responsabilidade pelas considerações
Que desenvolvo, é minha, pois ela é uma pensadora
Que tem o seu caminho de pensar, que sim, me influencia,
Mais e melhor, compõe com o meu modo de viver e pensar;
A motivação incial surgiu hoje quando acordei e pensei
Em escrever um texto que desenvolvesse a tese
De que a inteligência artificial é a humana, a que sempre temos
E tivemos, que é uma expressão da própria inteligência universal
A qual, por si mesma, é a presença em nós e no cosmos,
Assim na terra como no céu, da Inteligência Divina.

[1] DREYFUS, Hubert L. O que os computadores não podem fazer; uma crítica da razão artificial. Prefácio de Anthony Oettinger. Rio de Janeiro: A Casa do Livro Eldorado, 1975.
[2] Op. cit., p. 17.
[3] Cybernetics: Or Control and Communication in the Animal and the Machine. Paris; (Hermann & Cie) & Camb. Mass. (MIT Press), 1948, 2nd revised ed. 1961.
[4] DREYFUS, 1975, P. 18.
[5] BURNS, Benedict Delisle. The uncertain nervous system. London; Edward Arnold, 1968.
[6] FOERSTER, Heinz von. Entrevista a PESSIS-PASTERNAK, Guitta. Do caos à inteligência artificial. Trad. Luiz Paulo Rouanet. São Paulo: Unesp, 1993, p. 201-202.
[7] DELEUZE, Gilles e GUATTARI, Félix. O que é a Filosofia? Trad. Bento Prado Jr. E Alberto Alonso Muñoz. Rio de Janeiro: 34, 1992, p. 257-279.
Edição francesa: Qu’est-ce que la philosophie?. Paris: Minuit, 1991.
 

Nenhum comentário:

Postar um comentário